sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Corpo no mundo

Foi então que ela percebeu que via tudo cinza: cimento rachado, pedras portuguesas desarrumadas, asfalto: era o chão... De tanto olhar pra baixo não via nada além disso, quando, com um suspiro de cansaço, percebeu que era essa posição curvada que deixava seu coração apertadinho. Apertava o tórax, tirava o ar, deixava cega...
Subitamente entendeu que sua vida estava encolhida. E com a força de quem ainda tem ar foi levantando o pescoço e sentido cada ossinho se encaixar, estalando, acordando... Olhou para cima, olhou para os lados, viu e sentiu as cores. Imediatamente seu sorriso apareceu.
Respirou fundo, deu um passo grande, sentiu o vento! Sorriu, sorriu!
Deixou todo o mundo entrar em seu corpo, todos seus sentidos ficarem excitados... Ela estava dormente porque viva, porque vive. Porque a vida é uma só!
lsg

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Minha música de pássaro

Não sei nada da música que faz um músico.
Mas sou pássaro, voo livre para sentir os sons no ar. Minha partitura não tem linhas e na melodia não há ordens. Só há os espaços dos tempos, onde vou compondo cada tom e cada mistério do mundo.
Na minha música não tenho só ouvidos, mas também os olhos enxarcados de cores, tenho o cheiro, tenho o gosto.
Minha música é voar. É pelo vento que chego, que toco...
lsg

terça-feira, 27 de julho de 2010

Permitir, verbo transitivo direto e indireto

Eu permito
-me permito, te permito. Mas se
Tu não permites, então
Nós seremos intransitivo.

E enfim, alguma pessoa no singular vai ter escolher. Ou ela ou ele, ou, eu ou tu.

lsg

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Regra Três

"Tantas você fez que ela cansou. Porque você, rapaz, abusou da regra trÊs onde menos vale mais.
Da primeira vez ela chorou e resolveu ficar. É que os momento felizes tinham deixado raízes no seu penar. Depois perdeu a esperança porque o perdão também cansa de perdoar.
Tem sempre o dia em que a casa cai. Pois vai curtir seu deserto, vai. Mas deixe a lâmpada acesa se algum dia a tristeza quiser entrar. E uma bebida por perto porque você pode estar certo que vai chorar." - Toquinho

sábado, 5 de junho de 2010

Ode à liberdade

Não me venhas com fatalidades, pois nada pode ser tão desastroso quanto o desejo não realizado. A vontade sim é inevitável, mas o que fazer com ela não é fatal, é livre. Dar à vida um destino inevitável é negar sua própria liberdade - faças tudo e até onde houver vontade. Não há lei que possa me proibir e nem palavras que possam me recriminar pois, eu, com elas ou sem elas, seguirei meu devir, com todas as portas desempedidas para eu abrir. Irei até franzir a testa, beber uma dose e refletir... isso tudo para eu escolher por onde entrar. E isso não é fatal! É como um mergulho que se mal dado podem as águas entrarem em seus ouvidos, mas se souberes nadar terás a maior sensação de liberdade que aquele movimento fresco e claro pode te permitir.
E para seguir a lógica não fatalística, basta então se levantar, sacudir a cabeça para em outra onda entrar.
Não me venhas com fatalidades. Não preciso de nada além das minhas escolhas, e das nossas vontades!
lsg

quarta-feira, 2 de junho de 2010

In-tensa

Não me chame pra conversar se não for até ficarmos roucos, não me chame para beber se não for até cairmos, não me chame pra dançar se não for até doerem os pés, não me chame para sentar se não for até deitarmos. Pode ser loucura, mas não é. O nome disso é intensidade, é tudo o que eu sinto, é tudo o que me move. É como se eu não pudesse nadar em águas rasas porque preciso mergular, preciso ir fundo. Sim, preciso me afogar, morrer para então renascer. Só assim, com muita força posso te abraçar e me sentir. Não posso brincar se não for para me sujar, para suar, para me arranhar. De tanto ser tanto canso! Canso de rir, canso de olhar, canso de andar, mas pode deixar que não estou parada estou apenas vivendo intensamente o que é para ser e então, dentro de alguns instantes, volto, vôo, vou. Sempre cansada, porque é sempre muito! Eu sou muito, e não me digas para ser pouco porque o meu equilíbrio está em viver tudo!
lsg

terça-feira, 25 de maio de 2010

Balões

Estamos cheios de nada, cheios do nada... E por isso inventamos, criamos histórias, amores, doenças, bebedeiras... Assim vivemos a ocupar nosso tempo, até a hora que fazemos um furo no balão para o ar sair. Junto com ele se vai o nada e então, feito balão, saímos por aí... sem rumo, dando piruetas sem olhar por onde passamos. É somos como balões de ar que para conhecer o mundo é preciso morrer, deixar que o ar leve nosso nada e tudo mais que nos fazia apenas boiar.

Estou me furando. Estou voando, atropelando. Mas diferente dos balões podemos parar e aí que me desconcentro. É parada que deixo novos ares entrarem em mim, deixo criações do mundo me levarem. Paro para criar e então sou história e então amo, adoeço, me embriago...

Preferia ser balão.

lsg